domingo, 23 de setembro de 2012

A realização singular de cada um contribui solidariamente para a perseverança de todos.




Há cinquenta anos, o navio Andrea Doria, construído em Gênova e lançado ao mar pela primeira vez em 1951, naufragou quando navegava de sua cidade natal para Nova Iorque, às 23h10, do dia 25 de julho de 1956. Anos mais tarde, o músico Renato Russo, da lendária Legião Urbana, batizou uma música com esse nome. A letra fazia referências ao diálogo entre o cantor e uma amiga cheia de sonhos.

A amiga sonhadora, que sempre fora para ele motivo de admiração justamente pela força e pela coragem que manifestava diante das adversidades da vida, nesse dia, no entanto, estava meio cabisbaixa, meio "baixo astral". Desanimada, durante a conversa, emitia um riso ácido ao Renato Quase parecendo te ferir. Ele buscava incentivá-la, como ela própria sempre fazia; De nada vale fugir e não sentir mais nada. O diálogo virou “Andréa Doria”, uma reflexão sobre o  momento em que os sonhos da amiga, e de tanta gente mais, naufragam. Os delas pela colisão com o iceberg do capitalismo, do consumismo, da selvageria entre os humanos, da hipocrisia das relações. 

Naquele dia, o naufrágio dos sonhos parece que foi inevitável, daí o título na música.

O que os dois não sabiam, ainda, é que sonhos submersos em lutas e tribulações não deterioram, se bem nutridos pela fé. O próprio tempo os alimenta e generosamente os faz crescer. E nossos sonhos nos acompanham, não pela vida inteira, é bom que se saiba disso, mas por um bom tempo. Não bastando, porém, alimentos espirituais, é certo. É necessário traçar metas, determinar prazos, avaliar riscos, aguardar com paciência, fazer alianças.

E de que vale tudo isso? Sonhos realizados carregam em si a certeza da materialização do espírito, a certeza da manifestação de coisa nunca vistas, a concretude de que o pensamento antecede a matéria e, portanto, antes de nós, alguém já pensava em nossa existência e, sendo nós, sonhos concretos de alguém, motivos de celebrações, trazemos substancialmente a matéria prima, que produz vitórias. Somos o Andréa Doria chegando ao Porto de Nova Iorque, a seleção brasileira recebendo a taça pelo hexacampeonato, somos o que deu certo.

A realização singular de cada um contribui solidariamente para a perseverança de todos.

Os tripulantes do Andrea Doria se salvaram em sua maioria, de 1705 pessoas a bordo, houve 51 mortes, quase todos vitimados pelo impacto inicial. Os construtores do navio, cautelosos pela tragédia Titanic, muniram-se de todos os possíveis recursos e precauções que evitaram outro desastre naquelas proporções. O Renato talvez não tenha alcançado êxito em sua tentativa de animar a amiga, no entanto transformou poesia em música, gravou o LP DOIS, que foi a entrada definitiva da banda na história do Rock nacional. Planos desfeitos, sonhos refeitos, possíveis realizações.

Qual a largura, a profundidade, qual o alcance dos seus sonhos? De que e quando você os alimenta?Eu? Tive meus sonhos, tenho ainda. Um deles era justamente que alguém, além de mim, lesse meus textos e gostasse deles. E fico com “Andrea Doria”, a música, Tenho o que ficou e tenho sorte até demais, como sei que tens também, e isso sinceramente, basta.