sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Dois

Há cinqüenta  anos o navio Andrea Doria construído em Gênova e lançado ao  mar pela primeira vez em  1951, naufragou quando navegava de sua cidade natal para Nova York, às 23:10 do dia 25 de julho de 1956. Anos  mais tarde o músico Renato Russo, da lendária Legião Urbana,  batizou uma música com esse nome. A letra fazia referências ao  diálogo entre  o cantor  e uma amiga  cheia de sonhos.
A  amiga sonhadora,  que  sempre fora para ele  motivo de admiração justamente pela força e coragem  que manifestava diante das adversidades da vida, nesse dia, no entanto, estava meio cabisbaixa, meio baixo astral.
Desanimada, durante a conversa, emitia um riso ácido ao  Renato Quase parecendo te ferir. Ele  buscava incentivá-la, como ela própria sempre fazia; De nada vale fugir e não sentir mais nada .O diálogo virou Andréa Doria, uma parábola do  momento em que   os sonhos da amiga, e de tanta gente mais, naufragam. Os delas pela colisão com o iceberg do capitalismo, do  consumismo, da selvageria entre os humanos, da hipocrisia das relações. 

Naquele dia o naufrágio  dos sonhos  parece que foi  inevitável, daí o titulo na música.

O que os dois não sabiam, ainda, é que sonhos submersos  em lutas e  tribulações não deterioram,se bem nutridos  pela  fé. O próprio tempo os alimenta e generosamente os faz crescer. E nossos sonhos  nos acompanham, não pela vida inteira é bom que se saiba disso, mas por um bom tempo. Não bastando, porém, alimentos espirituais, é certo. É necessário  traçar metas, determinar prazos, avaliar riscos, aguardar com paciência, fazer alianças.

E  de  que  vale tudo isso? Sonhos  realizados carregam em si a certeza da materialização do espirito, a certeza da manifestação de coisa nunca vistas, a concretude  de que  o pensamento   antecede  a matéria e  portanto antes de nós, alguém já pensava em  nossa existência e sendo nós, sonhos concretos de alguém, motivos de  celebrações, trazemos substancialmente a matéria prima, que produz vitórias . Somos o Andréa Doria  chegando ao Porto de Nova York, a seleção brasileira recebendo a taça pelo hexacampeonato, somos o que deu certo.

A realização singular de cada um contribui solidariamente  para perseverança de todos.


Os tripulantes do Andrea Doria se salvaram em sua maioria, de 1705 pessoas a bordo  houve 51 mortes quase todos vitimados pelo impacto inicial. Os construtores do navio, cautelosos pela tragédia Titanic, muniram-se de todos os possíveis recursos e precauções que evitaram outro desastre naquelas proporções. O Renato talvez não tenha alcançado êxito em sua tentativa de animar a amiga, no entanto transformou poesia em música, gravou o LP DOIS, que foi a entrada definitiva da banda na historia do Rock nacional. Planos desfeitos, sonhos refeitos, possíveis realizações.

Qual a largura, profundidade, qual o alcance dos seus sonhos? De que e quando você os alimenta?

Eu? Tive meus sonhos, tenho ainda. Um deles era justamente que alguém, além de mim, lesse meus textos e gostasse. E fico com Andrea Doria, a música, Tenho o que ficou e tenho sorte até demais, como sei que tens também, e isso sinceramente, basta.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Sobre Politicos e Funerais!

Quando eu li o anuncio da morte do ex-vice presidente José de Alencar, fiquei comovida. De verdade. Coisa bonita no ser humano é a superação, a capacidade de se reinventar. E ele fez isto muito bem, na saúde e na doença. Além desta capacidade de ir além eu me espelhava nele por ser um Mineiro que veio a Brasília e fez história. Ele morreu em São Paulo, mas o enterro seria aqui, em Brasília. E mais, teria um velório no Palácio do Planalto, com direito de visita de populares pela entrada principal, a rampa. Eu queria ir, por condolência, porque gosto de participar de eventos que se tornam históricos. E também queria muito subir a rampa do Palácio, confesso, achei muito chique.

O local estava cheio, mas não havia tumulto, não havia bagunça. Os jornalistas montaram tendas na lateral do Palácio, e nesta mesma lateral mais adiante fizeram uma entrada para os pupulares. O trajeto desta entrada até a rampa dava quase uns duzentos metros, era um retângulo gradeado e com seguranças armados. Você entrava pelo “portão”onde havia dois seguranças que organizavam a fila e evitava que o povo entrasse direto para dentro do palácio. Seguindo, o trajeto gradeado ia se afunilando até chegar diante de mais seguranças, revista, e detectores de metal. Ai seguíamos por mais uns trinta metros até chegar a entrada de rotina do palácio, por onde supostamente o Lula ia passar, uma parte do povo se agarrou nas grades desta região (incluindo eu), e uma outra pequena parte seguiu em frente. A rampa foi divida, de um lado só descia, do outro só subia. Quem subia, enfim entrava no salão, ainda em fila, passava por mais uns dez seguranças, olhava de longe o corpo e com mais dois passos já estava fora do salão. Aí descia a rampa e num piscar de olhos, já estava na rua.

A fila não ficava parada, o negócio era seguir adiante sempre , na rampa, dentro do salão diante do corpo. Brasileiros que somos, e não ingleses,  eu não era a única perdularia a estar ali. O local de maior ibope, para todos os populares, era a rampa, claro que todo mundo parava para fotografias. Eu estava sem máquina, pedi a uma estranha que tirasse fotos de mim, e depois me enviasse por e-mail, coisa que ela nunca fez (acho até que nem mesmo a foto ela tirou). Lá pelas nove da noite, surgiu um boato de que o Lula já estava chegando. Aí o povo esqueceu do falecido e ficou todo mundo só esperando o Lula. Inclusive eu.  Depois de dar umas três voltas completas fui embora, desistindo de ver o Lula. Atravessei a primeira rua, na segunda já em frente ao Supremo, num lugar ruim de atravessar , veio uma moto e parou o transito local. Assustei. Achei que era algum atentado. Juro. O cara desceu da moto colocou a mão para cima e todo mundo parou, (será que era para eu atravessar?). Eu fiquei tão assustada que paralisei. Em seguida começou uma zoeira de sirenes e mais motos, da aeronáutica. Só então me toquei. Eram os batedores do comboio Presidencial. Estavam chegando Dilma e Lula. O carro  não parou em frente ao Palácio do Planalto, desceram direto rumo ao Alvorada, na certa para tomar um banho ou coisa assim.

Acreditem ou não. Resolvi voltar. Para que eu não sei. Que diferença faz, ver ou não o presidente meu Deus. Mas alguma coisa era mais forte que eu e não consegui segurar meus passos, voltei para fila. Oito vezes. Fiz o trajeto mais oito vezes, sem contar o tempo em que parei no gradeado em frente a portaria que  supostamente o Lula iria entrar. Numa destas paradas, havia uma moça com uma garotinha aguardando também, e a garotinha chorava doida para ir para casa. Vamos, mãe. Calma filha, espera mais um pouco ele já vai chegar. Da próxima vez eu não trago você, viu. Ameaçou a mãe. Haveria uma próxima vez? A rampa só abre ao povo para funerais de presidentes e ex presidentes. A menina deveria ter uns sete anos,quem morreria nos próximos dez anos, antes  daquela menina deixar de ser uma criancinha? Dá próxima vez você não vem. Segui na fila mais umas quatro vezes e nada de Lula. Cansei. Fui embora. Dez minutos depois, já em casa. Vi o Lula pela televisão, acabara de chegar. Se la vie.

Tempos depois faleceu o ex Presidente Itamar Franco. Como uma previsão daquela moça, haveria sim uma próxima vez. Mas os familiares do Presidente prefiram o Palácio em Minas. E falo a verdade, eu estava lá mais uma vez. Não há rampas, mas eu já estava em Minas, fui para resolver uns probleminhas de família e não resisti, apareci para o Adeus ao presidente. Celeste, Celeste diria a minha mãe. Você não se emenda, né?

Mas este post era sobre politica e não apenas funerais. É o primeiro deste tema e achei interessante começar falando de dois políticos anunciados pela mídia como honestos e eficazes dentro de suas atribuições. Mineiros, sóbrios, discretos e teimosos. O que esperar de nossos representantes? Que valor tem um voto nosso? O que podemos e queremos mudar deste País? Como fazer valer nossa voz no Congresso?

PS:Escrevi este post há alguns meses, nunca poderia imaginar a doença do Presidente Lula.

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domingo, 13 de novembro de 2011

Dinheiro Sujo, Alma Limpa!

Saí de casa domingo passado, por volta de meio dia com destino á Feira de Artesanato da Torre, aqui em Brasília. Depois iria almoçar com minha irmã caçula na nova casa dela, e aproveitei para levar meu computador antigo que eu estava tentando doa-lo a quase um ano. Minha irmã trabalha para uma ONG, de um amigo dela, cuja finalidade é promover a inclusão digital. A instituição recebe o  computador velho, conserta e depois doa para escolas e telecentros. Era a terceira vez este ano que eu colocava o mesmo computador para mais uma tentativa de  doação. Mesmo depois da peleja que é descer quatro lances de escada com um objeto pesado, mesmo sabendo que meu apartamento é minúsculo, mesmo sabendo que eu tenho um computador novo em casa, ainda assim, na hora de dar o PC, eu sempre desisto. Puro apego.

Na primeira tentativa escolhi uma escola pública para cegos. Fui até lá, conheci a escola, e não bastava entregar o computador, eu quis mais confusão. Cadastrei para ser ledora, mas isto é outra história. Por tratar-se de pessoa pública a doação não era muito fácil, não. Mesmo assim enviei o computador para manutenção, para que eu pudesse entregá-lo em perfeitas condições, funcionando bem. Levei numa oficina próxima da minha casa, levei CPU e monitor, embora eu saiba que em geral a CPU basta. Mas empresas públicas quase nunca têm verba para manutenção, e vai que tivesse um defeitinho no monitor? Três dia para fazer o orçamento, ai ligamos para dizer quanto é. Tudo bem. Fico agudando. Obrigada. Apareci na semana seguinte, mesmo sem nenhum contato da empresa. Qual o nome? Trouxe o protocolo? não, ainda não foi feito o orçamento. Vou levar a máquina. Não, não eu faço agora mesmo. Dependendo do que for, conserto agora. Meia hora depois. É memoria. 300,00. Memoria? é. Faz só um um bakcup, que eu não vou consertar. Beleza. O backup é 20,00 em CD, e 5,00 no pendrive. Tá então vou buscar o pen drive. Meia hora depois quando cheguei o computador estava todo prosa funcionando, e sem troca de memória. Coloquei memoria nova só para fazer o back up.

O computador ficou no porta malas do carro por quase um mês. Nem doação, nem conserto.

Até que num daqueles dias em que você resolve resolver tudo, fui direto para 207N no setor de compra, venda e manutenção de informática. Segundo diagnóstico: placa mãe queimada. Fica em 200,00. Não, não faz o conserto não, muito caro. Sou persistente, fui tentar mais uma vez. Quando o atendente da próxima loja viu que teria que carregar CPU e monitor, sem nem  ligar o monitor o cara disse que estava tudo bem e que não iria ficar com o monitor. Ai eu pensei: vou ter que subir novamente com este computador, esperar o CPU consertar e descer de novo as escadas. Desisto. Levei numa próxima loja deixei para consertar, com a indicação que poderiam fazer o serviço fosse o preço que fosse. De novo.

Uns três dias depois o dono da loja  liga e diz que não tinha nada no PC era apenas a chave que estava em 220 e ele só funciona com 110 e transformador. Legal. Passei lá para buscar. Ficou 80,00, pois fizemos  limpeza na memória.Busquei a máquina num sábado não daria para levar na Escola de Cegos, para finalmente fazer a doação. Meu filho, que  estava comigo, não perdeu tempo: leva direto para casa mãe, ai eu coloco joguinho nele e fico com  dois. Tá . Então tá. Quer saber, fica mais fácil. Subimos os quatro lances de escada, e eu pensando, mas porque que eu to trazendo esta máquina para casa novamente? Fomos montar a benção do computador, fora de uso há quase um ano. Não achamos o cabo de força, nem o teclado, nem o mouse. Então colocamos num cantinho até arranjar um local mais adequado. Passaram dois meses e nada e o computador continuava inutilizado, no mesmo cantinho.

Até que neste último domingo, num daqueles dias em que você resolve resolver tudo. Desci mais uma vez quatro lances de escada, decidida a levar o pc para esta minha irmã que trabalha com um amigo que tem uma ONG e blá, blá, blá , desencanei da Escola de Cegos,pois não havia condições imediata de uso e no projeto do amigo da minha irmã, eles consertam. No trajeto até a feira fui pensando o porquê de tanta dificuldade em doar o computador.

Meu primeiro computador. Comprei em 2001, em Belo horizonte, com um bendito dinheiro de uma penosa (sempre é) recisão trabalhista. Estes  processos arrastados, em que você diz meias verdades o empregador diz meias mentiras e o trabalhador em geral sai vitorioso ganhei horas extras e adicionais noturno. Acho até que  muito justo. O dinheiro era meu. Mas sei lá, parece que estas coisas arrastadas, com mágoas, atrasam a vida da gente. Lembrei da  minha mãe falando,  dinheiro sujo até compra , mas as coisas não vingam. Foi assim com este computador. Comprei por 1.500,00 ( o total da indenização foi 3.000,00) com intenção de trabalhar com produção de vídeos e criação de design para estamparia de camiseta. Chique né? A máquina foi toda montada, colocamos uma super placa de vídeo, ampliei a memória (a dita) e agora, passados dez anos, nenhuma camiseta, nenhum vídeo e uma super obsoleta placa de vídeo. Meu novo negócio foi um fracasso, nada deu certo, mas arrastei este computador nas costas, nestes últimos dez anos, por todos os lugares que morei.

Ele era o última prova  concreta de que eu havia feito alguma coisa pelos meus sonhos.

No caminho, antes de chegar à feira parei para abastecer, fiz o retorno e veio um garoto entregar papéis de propaganda, eu sempre recebo todos. Guardo no carro e depois levo para reciclar, quase nunca leio. O garoto viu o computador no carro e perguntou se eu queria vende-lo  para ele, eu disse que não. Que ia doar e tal. Pensei até em contar toda esta história, mas para sorte dele o sinal abriu. Fui embora, mas não fiquei tranquila, acabei retornando ao local. Parei novamente no sinal e chamei o garoto. Vai vender? Não vou doar para você. Ele ficou todo feliz. É sério? Estou montando uma lan house e estou precisando comprar umas máquinas baratas. Ele funciona? Você tem outro PC. Se não tiver por 500,00 monto uma máquina otima para você. Eu tenho, tenho sim. Como você vai levar? Onde você mora, talvez eu possa leva- lo  para você, até sua casa. Ele disse que não precisava, pois no fim do dia o patrão viria busca-lo de carro.

Quando vi a máquina no chão e o sorriso do garoto, senti um alívio tão grande. Parecia que finalmente estava me livrando do peso da recisão, de tudo de ruim que havia vivido naquele emprego. Senti minha alma limpa e leve. Valeu a pena. Torço para que meu amiguinho tenha muito mais sorte que eu, em suas realizações. E de verdade, que todos vocês tenham muito mais sorte que eu.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

SAMPLEAR!

Quando escuto o refrão da música Desabafo do Marcelo D2, sinto um  arrepio. É um som muito forte! Não sou fãzona do Marcelo, mas respeito e admiro a diversidade que permeia a trajetória musical dele, sua musicalidade. Não posso dizer que acompanho sua carreira de perto, e para mim não foi natural saber que esse refrão, que tanto gosto, era um sample da música Deixa Eu Dizer composta por Ivan Lins e cantada pela Cláudia lá pelos idos de mil novecentos e setenta e três. Podem rir, em que mundo eu vivo? Tive sim que pesquisar para descobrir, primeiro, que sample é teoricamente a técnica da sampleagem, é o ato de se extrair de uma gravação algum trecho da construção musical e utiliza-la para a construção de uma nova música. Em parte ou em seu todo. Trocando em miúdos, quando você ouve uma música que possui um trecho de uma outra música o artista se utilizou de um sample. Depois, descobrir que a Cláudia é uma importante cantora brasileira, injustamente esquecida pela mídia nos últimos tempos , mas dona de uma voz e uma afinação brilhante, como podemos conferir no meu refrão favorito .


Já que eu estava nesta de pesquisar, fui um pouco além e li também sobre uma música, que o mesmo D2 canta com a banda Cone Crew Diretoria, cujo refrão também  é um sample. A música é Falo Nada e seu refrão, muito legal, diz assim: Falador Passa Mal, rapaz. Falador Passa Mal. O verso é trecho da música Falador, dos Originais do Samba,  grupo de samba nascido em setenta, vivo até  hoje com suas diversas formações. E tem mais, em Desabafo, Marcelo ainda dá mais um nó na minha cabeça quando faz referência à Falo Nada (sampleando  a si mesmo?) ou a Falador? No verso que diz já falei que falador passa mal. Foi uma delícia fazer esta pesquisa ouvi tantas batidas diferentes e tantas vozes impressionantes. Mas com isso adiei mais uma vez o inicio da postagem deste blog, fiquei a semana toda nesta lenga-lenga, e o que eu queria ter começado na segunda-feira, só deu para começar hoje.


Sexta-feira e eu começando. Verdade seja dita, no fim das contas foi bom, porque descobri que neste espaço não vou fazer nada mais que samplear noticias do que rolou por aí, embora eu saiba que falador passa mal, peço licença para que deixem eu dizer meu desabafo: Sextas, sobre cultura; aos sábados o tema será cuidados com o corpo, e  aos  domingos,  com a alma.  Ás segundas conversaremos sobre politica; ás terças, econômia; quartas sobre o cotidianos nas cidades e quinta será o dia dos relacionamentos.

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