A realização singular de cada um contribui solidariamente para a perseverança de todos.
Há cinquenta anos, o navio Andrea
Doria, construído em Gênova e lançado ao mar pela primeira vez em 1951,
naufragou quando navegava de sua cidade natal para Nova Iorque, às 23h10, do
dia 25 de julho de 1956. Anos mais tarde, o músico Renato Russo, da lendária
Legião Urbana, batizou uma música com esse nome. A letra fazia referências ao
diálogo entre o cantor e uma amiga cheia de sonhos.
A amiga sonhadora, que sempre fora para ele motivo de admiração
justamente pela força e pela coragem que manifestava diante das adversidades da
vida, nesse dia, no entanto, estava meio cabisbaixa, meio "baixo astral". Desanimada, durante a conversa, emitia um riso ácido ao Renato Quase parecendo te ferir. Ele buscava
incentivá-la, como ela própria sempre fazia; De nada vale fugir e não sentir mais nada. O diálogo virou “Andréa
Doria”, uma reflexão sobre o momento em
que os sonhos da amiga, e de tanta gente mais, naufragam. Os delas pela colisão
com o iceberg do capitalismo, do consumismo, da selvageria entre os humanos, da
hipocrisia das relações.
Naquele dia, o naufrágio dos sonhos parece que foi inevitável, daí o
título na música.
O que os dois não sabiam, ainda, é que sonhos submersos em lutas e
tribulações não deterioram, se bem nutridos pela fé. O próprio tempo os
alimenta e generosamente os faz crescer. E nossos sonhos nos acompanham, não
pela vida inteira, é bom que se saiba disso, mas por um bom tempo. Não
bastando, porém, alimentos espirituais, é certo. É necessário traçar metas,
determinar prazos, avaliar riscos, aguardar com paciência, fazer alianças.
E de que vale tudo isso? Sonhos realizados carregam em si a certeza da
materialização do espírito, a certeza da manifestação de coisa nunca vistas, a
concretude de que o pensamento antecede a matéria e, portanto, antes de nós,
alguém já pensava em nossa existência e, sendo nós, sonhos concretos de alguém,
motivos de celebrações, trazemos substancialmente a matéria prima, que produz
vitórias. Somos o Andréa Doria
chegando ao Porto de Nova Iorque, a seleção brasileira recebendo a taça pelo
hexacampeonato, somos o que deu certo.
A realização singular de cada um contribui solidariamente para a perseverança de todos.
Os tripulantes do Andrea Doria
se salvaram em sua maioria, de 1705 pessoas a bordo, houve 51 mortes, quase
todos vitimados pelo impacto inicial. Os construtores do navio, cautelosos pela
tragédia Titanic, muniram-se de todos os possíveis recursos e precauções que
evitaram outro desastre naquelas proporções. O Renato talvez não tenha
alcançado êxito em sua tentativa de animar a amiga, no entanto transformou
poesia em música, gravou o LP DOIS, que foi a entrada definitiva da banda na
história do Rock nacional. Planos desfeitos, sonhos refeitos, possíveis
realizações.
Qual a largura, a profundidade, qual o alcance dos seus sonhos? De que
e quando você os alimenta?Eu? Tive meus sonhos, tenho ainda. Um deles era justamente que alguém,
além de mim, lesse meus textos e gostasse deles. E fico com “Andrea Doria”, a
música, Tenho o que ficou e tenho sorte
até demais, como sei que tens também, e isso sinceramente, basta.


